quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Diamante Verdadeiro

Nesse universo todo de brilhos e bolhas
Muitos beijinhos, muitas rolhas
Disparadas nos pescoços das Chandon
Não cabe um terço de meu berço de menino
Você se chama grã-fino e eu afino
Tanto quanto desafino do seu tom
Pois francamente meu amor
Meu ambiente é o que se instaura de repente
Onde quer que chegue, só por eu chegar
Como pessoa soberana nesse mundo
Eu vou fundo na existência
E para nossa convivência
Você também tem que saber se inventar
Pois todo toque do que você faz e diz
Só faz fazer de Nova Iorque algo assim como Paris
Enquanto eu invento e desinvento moda
Minha roupa, minha roda
Brinco entre o que deve e o que não deve ser
E pulo sobre as bolhas da champanhe que você bebe
E bailo pelo alto de sua montanha de neve
Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu
Do mesmo modo como é verdadeiro
O diamante que você me deu.

Caetano Veloso

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O que aconteceu...

Mais do que é permitido, 
mais do que é preciso, 
como um delírio de poeta 
sobrecarregando o sonho: 
a pelota do coração tornou-se enorme, 
enorme o amor, 
enorme o ódio. 
Sob o fardo, 
as pernas vão vacilantes. 
Tu o sabes, 
sou bem fornido, 
entretanto me arrasto, 
apêndice do coração, 
vergando as espáduas gigantes. 
Encho-me dum leite de versos 
e, sem poder transbordas, 
encho-me mais e mais.

Vladimir Maiakovski (1893 - 1930)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Tão Bela!

Tão bela!
Jamais tão linda
poderias estar,
como quando
ao me afastar de ti,
percebi
que numa vertigem de loucura,
eu acabara de te beijar!

Teus olhos brilhavam -
tuas mãos medrosas
e atrevidas simultaneamente
tentavam despertar sensações
no meu corpo tenso!
Ah! quanto arrebatamento!
Teu beijo, sinto-o sempre!
Cada vez que em ti penso

Cassandra Rios (1932 - 2002)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo, 
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Calos Drummond de Andrade (1902 - 1987)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...

Florbela Espanca (1894 - 1930)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Coitado! que em um tempo choro e rio

Coitado! que em um tempo choro e rio
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Du~a cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

 Luís Vaz de Camões (1524 - 1580)