quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Filosofia

O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

Noel Rosa (1910 - 1937)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Penso assim...

O dia em que o ser humano conseguir entender o mais simples sentimento (porém não menos complicado), que é o amor, amor incondicional, não precisará mais usar armas e nem procurar a razão para sua existência, ele então será a razão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pense nisso...

Não existe caminho para a verdade, ela deve chegar até você. Ela só consegue chegar para você quando sua mente e coração são simples, claros e existe amor em seu coração; não se seu coração está cheio com as coisas da mente.

Jiddu Krishnamurti (1895 - 1986)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um Beijo

Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quanta morte sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

Vinícius de Moraes (1913 - 1980)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Caminhos...

AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com ma chuva.
Em Taltal não amanhece a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono. de água de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura de água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa dos cravos.

Pablo Neruda (1904 - 1973)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade(1902 - 1987)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tonel de Ódio

TONEL DO ÓDIO

O Ódio é o tonel das pálidas Denaides frias;
Por mais que da Vingança o braço rubro e forte
Derrame-lhe às entranhas ermas e sombrias
Baldes cheios de sangue e lágrimas da morte,

O Diabo lhe abre furos nunca imaginados,
Que verteriam séculos de esforço e suor,
Mesmo que à vida ela trouxesse os condenados
Para o corpo infligir-lhes castigo maior.

O Ódio é um ébrio perdido ao fundo da taverna,
Que sente sua sede emergir do licor
E ali multiplicar-se qual hidra de Lerna.

- Mas quem bebe feliz verá seu vencedor,
E ao Ódio resta apenas a amarga certeza
De saber que jamais dormirá sob a mesa.

Charles Baudelaire (1821 - 1867)

terça-feira, 5 de maio de 2009

A estrela da manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

Manuel Bandeira (1886 - 1968)


quarta-feira, 29 de abril de 2009

A morte para o justo é recompensa

De radiosas virtudes escoltada
Deste imaturo adeus ao mundo triste
Co(m)´a mente no almo pólo, aonde existe
Bem, que sempre se goza e nunca enfada,

À fouce, a segar vidas destinada,
Mansíssima cordeira o colo uniste;
O que é do céu ao céu restituíste,
Restituíste ao nada o que é do nada.

E inda gemo, inda choro, alma querida,
Teu fado amigo, tua dita imensa,
Que em vez de pranto a júbilo convida!

Ah! Pio acordo minha mágoa vença;
É cativeiro para o justo a vida.
A morte para o justo é recompensa.

Bocage (1765 - 1805)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Não sabes

Quanta alta noite n'amplidão flutua
Pálida a lua com fatal palor,
Não sabes, virgem, que eu por ti suspiro
E que deliro a suspirar de amor.

Quando no leito entre sutis cortinas
Tu te reclinas indolente aí,
Ai! Tu não sabes que sozinho e triste
Um ser existe que só pensa em ti.

Lírio dest'alma, sensitiva bela,
És minha estrela, meu viver, meu Deus.
Se olhas - me rio, se sorris - me inspiro,
Choras - deliro por martírios teus.

E tu não sabes deste meu segredo
Ah! tenho medo do teu rir cruel!...
Pois se o desprezo fosse a minha sorte
Bebera a morte neste amargo fel.

Mas dá-me a esp'rança num olhar quebrado,
Num ai magoado, num sorrir dó céu,
Ver-me-ás dizer-te na febril vertigem
"Não sabes, virgem? Meu futuro é teu"!

Castro Alves ( 1847 - 1871)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Os olhos dos pobres

Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.


De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.


Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.


Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"


Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!

Charles Baudelaire (1821 - 1867)

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Fome e o Amor

A um monstro

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta, 
Receando outras mandíbulas a esbangem, 
Os dentes antropófagos que rangem, 
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríasis sedenta, 
Rugindo, enquanto as almas se confrangem, 
Todas as danações sexuais que abrangem 
A apolínica besta famulenta! 

Ambos assim, tragando a ambiência vasta, 
No desembestamento que os arrasta, 
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos 
A alegoria do que outrora fomos 
E a imagem bronca do que inda hoje sois!

Augusto dos Anjos (1884 - 1914)


segunda-feira, 13 de abril de 2009

O meu maior bem

Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda a gente.

Mesmo a beijar-me, a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...

Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas caseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo,

Do teu frio desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?

Florbela Espanca (1894 - 1930)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Desejo

Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!
Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meu sentir;
Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meu silêncio, que me siga
Dos ares na amplidão!
Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem
Num êxtase de amor!

Gonçalves Dias (1823 - 1864)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Soneto I

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Tubal no empório celebrado,
Em sangüíneo caráter foi marcado
Pelos destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos, e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Bocage (1765 - 1805)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Alma Fatigada

Nem dormir nem morrer na fria Eternidade! 
Mas repousar um pouco e repousar um tanto, 
Os olhos enxugar das convulsões do pranto, 
Enxugar e sentir a ideal serenidade.

A graça do consolo e da tranqüilidade 
De um céu de carinhoso e perfumado encanto, 
Mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto, 
Sem o tédio senil da vã perpetuidade.

Um sonho lirial d'estrelas desoladas 
Onde as almas febris, exaustas, fatigadas 
Possam se recordar e repousar tranqüilas!

Um descanso de Amor, de celestes miragens, 
Onde eu goze outra luz de místicas paisagens 
E nunca mais pressinta o remexer de argilas! 

Cruz e Sousa (1861 - 1898)

sábado, 4 de abril de 2009

Em que pensas

Uma pequena homenagem!

Parabéns a minha amiga Márcia, felicidades.


Tu pensas na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!

No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.

Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores - tuas amigas!
Nas pombas - tuas írmãs!

Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.

Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!

Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!

Na bruma que lá s'escoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...

Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.

Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.

Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!

Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...

No livro - que tens no colo!
Nos versos - que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.

Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!

Nos tesouros de ventura
Que a um'alma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...

Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!

Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...

Castro Alves (1847 - 1871)



quinta-feira, 2 de abril de 2009

Lírica

Dama cruel, quem quer que vós sejais,
Que não quero por hora descobrir-vos, 
Dai-me licença agora para argüir-vos,
Pois para amar-vos sempre ma negais:

Por que razão de ingrata vos prezais,
Não me pagando o zelo de servir-vos? 
Sem dúvida deveis de persuadir-vos,
Que a ingratidão aformoseia mais.

Não há cousa mais feia na verdade:
Se a ingratidão aos nobres envilece,
Que beleza fará, o que é fealdade?

Depois, que sois ingrata me parece,
Que hoje é torpeza o que era então beldade,
Que é flor a ingratidão que em flor fenece.

Namorado, o poeta fala com um arroio

Como corres, arroio fugitivo?
Adverte, pára, pois precipitado
Corres soberbo, como o meu cuidado,
Que sempre a despenhar se corre altivo.

Torna atrás, considera discursivo,
Que esse curso, que levas apressado,
No caminho que empreendes despenhado
Te deixa morto, e me retrata vivo.

Porém corre, não pares, pois o intento,
Que teu desejo conseguir procura,
Logra o ditoso fim do pensamento.

Triste de um pensamento sem ventura,
Que tendo venturoso o nascimento,
Não acha assim ditosa a sepultura.

Efeitos contrários do amor

Ó que cansado trago o sofrimento
Ó que injusta pensão da humana vida,
Que dando-me o tormento sem medida,
Me encurta o desafogo de um contento!

Nasceu para oficina do tormento
Minha alma, a seus desgostos tão unida,
Que por manter-se em posse de afligida
Me concede os pesares de alimento.

Em mim não são as lágrimas bastantes
Contra incêndios, que ardentes me maltratam, 
Nem estes contra aqueles são possantes:

Contrários contra mim em paz se tratam,
E estão em ódio meu tão conspirantes,
Que só por me matarem não se matam.

Gregório de Matos (1623 -1696)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Rosa e Lírio

A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam - flor
D'amor,
Não sei.

A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, - dor
Na cor
O lírio.

Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza - mor
Primor
A rosa:

No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: - cor
E ardor
É o meu.

A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.

Almeida Garrett (1799 - 1854)

terça-feira, 31 de março de 2009

Mors-Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce, 
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente, 
Formidável, mas plácido, no porte, 
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Antero de Quental (1842 - 1891)

segunda-feira, 30 de março de 2009

Flor da Mocidade

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Coma * filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis (1839 - 1908)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Profissão de febre

Quando chove,
Eu chovo,
Faz sol,
Eu faço,
De noite,
Anoiteço,
Tem Deus,
Eu rezo,
Não tem,
Esqueço,
Chove de novo,
De novo, chovo,
Assobio no vento,
Daqui me vejo,
Lá vou eu,
Gesto no movimento.

Paulo Leminski (1944 - 1989)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Canção de Alta Noite

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

Cecilia Meireles (1901 - 1964)

Semper Eadem

Para a amiga Cláudia, pelo seu aniversário, parabéns. Baudelaire (O Maldito) conforme seu pedido, Beijos.

"De onde te vem, responde, essa tristeza infinda
Que galga, como o mar, o negro e nu rochedo?"
- Quando no coração nossa colheita finda,
viver é um mal. Ninguém ignora este segredo.

Uma dor muito simples, nada misteriosa,
A todos familiar, como tua alegria.
Nada queiras saber, minha bela curiosa!
E, embora a voz te seja afável, silencia!

Cala-te tola! alma de tudo embevecida!
Boca de riso ingênuo! Ainda mais que a Vida,
A Morte nos enlaça em seus sutis idílios.

Deixa-me o coração confiar no que suponho,
Dentro em teus olhos mergulhar como num sonho,
E dormir longo tempo à sombra de teus cílios!

Charles Baudelaire ( 1821 - 1868)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ainda que mal

Ainda que mal pergunte, 
ainda que mal respondas; 
ainda que mal te entenda, 
ainda que mal repitas; 
ainda que mal insista, 
ainda que mal desculpes; 
ainda que mal me exprima, 
ainda que mal me julgues; 
ainda que mal me mostre, 
ainda que mal me vejas; 
ainda que mal te encare, 
ainda que mal te furtes; 
ainda que mal te siga, 
ainda que mal te voltes; 
ainda que mal te ame, 
ainda que mal o saibas; 
ainda que mal te agarre, 
ainda que mal te mates; 
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio, 
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987)

sábado, 21 de março de 2009

Canção Grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insônia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão
Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui 

Florbela Espanca (1894 - 1930)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Luz entre sombras

É noite medonha e escura,
Muda como o passamento
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencória.

No entanto...minha alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Machado de Assis (1839 - 1908)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Dois cravos roxos

Esta noite, quando, lá fora,
campanários tontos bateram
doze vezes o apelo da hora,
na minha jarra, onde a água chora,
meus dois cravos roxos morreram...
Meus dois cravos roxos morreram!
Meus dois cravos roxos defuntos,
são como beijos que sofreram,
como beijos que enlouqueceram
porque nunca vibraram juntos...
São como a sombra dolorida
de olhos tristes, que se perderam
nas extremidades da vida...
Oh! miséria da despedida...
Meus dois cravos roxos morreram...
Meus dois cravos roxos morreram!
Meus dois cravos roxos, fanados,
crepuscularam, faleceram,
como sonhos que se esqueceram,
alta noite, de olhos fechados...

Eu pensava numa criatura,
quando os campanários bateram...
Tudo agora se me afigura
irremediável desventura...
Irremediável desventura!
Meus dois cravos roxos morreram...

Cecília Meireles (1901 - 1964)

terça-feira, 17 de março de 2009

Espelho

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
 
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

(tradução de Vinicius Dantas)

 Sylvia Plath (1932 - 1963)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Se te Amo, Não Sei!

Amar! se te amo, não sei. 
Oiço aí pronunciar 
Essa palavra de modo 
Que não sei o que é amar.

Se amar é sonhar contigo, 
Se é pensar, velando, em ti, 
Se é ter-te n'alma presente 
Todo esquecido de mim! 

Se é cobiçar-te, querer-te 
Como uma bênção dos céus 
A ti somente na terra 
Como lá em cima a Deus; 

Se é dar a vida, o futuro, 
Para dizer que te amei: 
Amo; porém se te amo 
Como oiço dizer, não sei. 

Sei que se um gênio bom me aparecesse 
E tronos, glórias, ilusões floridas, 
E os tesouros da terra me oferecesse 
E as riquezas que o mar tem escondidas; 

E do outro lado a ti somente, e o gozo 
Efêmero e precário e após a morte; 
E me dissesse: "Escolhe" oh! jubiloso, 
Exclamara, senhor da minha sorte! 

"Que tesouro na terra há i que a iguale? 
Quero-a mil vezes, de joelhos sim! 
Bendita a vida que tal preço vale, 
E que merece de acabar assim!" 

Gonçalves Dias (1823 - 1864)

quinta-feira, 12 de março de 2009

A fina, a doce ferida

A fina, a doce ferida 
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.

Por que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo.

Como uma adaga partida
Purge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...

Manuel Bandeira (1886 - 1968)

O coração

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um - tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro - voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel - a que se chama - crenças -,
Vive do aroma - que se diz - amor.

Castro Alves (1847 - 1871)

terça-feira, 10 de março de 2009

Aspiração Suprema

Como os cegos e os nus pede um abrigo 
A alma que vive a tiritar de frio. 
Lembra um arbusto frágil e sombrio 
Que necessita do bom sol amigo.

Tem ais de dor de trêmulo mendigo 
Oscilante, sonâmbulo, erradio. 
É como um tênue, cristalino fio 
D'estrelas, como etéreo e louro trigo.

E a alma aspira o celestial orvalho, 
Aspira o céu, o límpido agasalho, 
sonha, deseja e anseia a luz do Oriente...

Tudo ela inflama de um estranho beijo. 
E este Anseio, este Sonho, este Desejo 
Enche as Esferas soluçantemente. 

Cruz e Sousa (1861 - 1898)

domingo, 8 de março de 2009

Ao dia internacional da mulher

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou..

Luiz Vaz de Camões (1524 - 1580)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Contudo...

Contudo, contudo, 
Também houve gládios e flâmulas de cores 
Na Primavera do que sonhei de mim. 
Também a esperança 
Orvalhou os campos da minha visão involuntária, 
Também tive quem também me sorrisse. 
Hoje estou como se esse tivesse sido outro. 
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa. 
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo. 
Caí pela escada abaixo subitamente, 
E até o som de cair era a gargalhada da queda. 
Cada degrau era a testemunha importuna e dura 
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse, 
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, 
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. 
Sou imparcial como a neve. 
Nunca preferi o pobre ao rico, 
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim. 
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, 
Mas isso era outro mundo. 
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. 
Acima de tudo o mundo externo! 
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.

Fernando Pessoa (1888 - 1935)


Amor da Menina

Se te vejo passar, minha cara indolente,
Ao canto de instrumentos, partido no teto,
Como donaire a fulgir, lenta e harmoniosamente,
O tédio a navegar no teu olhar inquieto;

E se eu contemplo, à luz do gás e que a colora,
Pálida fronte a arder de mórbido aparato,
Em que as tochas da tarde acendem uma aurora,
E estes olhos que atraem, como os de algum retrato,

Eu me digo: Que beleza! E que fresco vestido!
A saudade maciça - um halo de esplendor -
Coroa-a; e o coração, um pêssego ferido,
E o corpo amadurecem para o sábio amor.

És o fruto outonal de sabor soberano?
És o lacrimatório à espera de algum pranto,
Perfume de sonhar num oásis arcano,
Ramalhete de flor ou caricioso manto?

E de olhares eu sei de tristezas iníquas,
Que nada deixam ver por detrás de seus véus;
Escrínios a mofar, medalhões sem relíquias,
Mais ocos, a afundar muito mais do que os céus!

Mas não te basta ser só ilusão imensa
Para num falso coração ter tua presa?
Que importa o que há em ti, de tola indiferença?
A máscara que importa? Amo a tua beleza!

Charles Baudelaire (1821 - 1867)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ar Noturno

Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu! Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu! Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

tradução de William Agel de Melo

Federico Garcia Lorca (1898 - 1936)

terça-feira, 3 de março de 2009

Horas Rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca (1894 - 1930)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Ideal

Desde bem cedo me sorriste,
Ó luz da alma contemplativa!
Na minha noite escura e triste
Hás de brilhar, enquanto eu viva.

Astro do enlevo solitário,
Oculta flor do ermo saudoso,
Lâmpada do íntimo sacrário,
Etérea fonte de almo gozo.

Tu és, na altura inacessível,
O eterno prêmio que eu almejo
E sigo; brilhas impassível
E eu vivo, enquanto ainda te vejo!

Por mais que neste inferno pene
E arder-me a vida toda sinta,
Adoro-te, ó sonho perene!
Ó ambição da alma faminta!

Astro amigo, fulge e cintila.
E roto à vida o frágil nexo,
Venha-me à fronte, enfim tranqüila,
A extrema-unção do teu reflexo!

Lúcio de Mendonça (1854 - 1909)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Da Espécie

A rosa atrai a rosa.
Por enredos e meandros 
de essência.
A áurea rosa, a fulva, a rubra,
na expectativa da mais pura.
E são vergéis convergindo
para abertas campinas
na milenar procura
de uma fórmula mágica
paradigma da espécie.
Existe a branca, a nívea rosa
de perfeição una e perene
ou apenas a imagem
que deriva do anelo?
O aroma, a seiva, a força,
eu os sinto latentes
a presumir da forma para o enleio.
E entre mil rosas consagradas
à rendição do redil,
existe a rosa selvagem
que se reclina sobre o abismo.
A que vai ao acaso
de crisol em crisol
para que brote a transcendente
rosa com que sonha a rosa.

Henriqueta Lisboa (1904 - 1985)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um dia

Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela... 
Um dia nós percebemos que as mulheres tem extinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer... 
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável... 
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples... 
Um dia percebemos que o comum não nos atrai... 
Um dia saberemos que ser classificado como o "bonzinho" não é bom... 
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você... 
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." 
Um dia percebemos que somos muito importante para alguém mas não damos valor a isso... 
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais... 
Enfim...
um dia descobrimos que apesar de viver quase um século 
esse tempo todo não é suficiente 
para realizarmos todos os nossos sonhos, 
para beijarmos todas as bocas que nos atraem, 
para dizer tudo o que tem que ser dito.. 
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutar para realizar todas as nossas loucuras... 
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação. 

Mário Quintana (1906 - 1994)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quantas vezes amor, me tens ferido?

Quantas vezes , Amor, me tens ferido ? 
Quantas vezes, Razão, me tens curado ?
 
Quão fácil de um estado a outro estado
 
O mortal sem querer é conduzido !

Tal, que em grau venerando, alto e luzido, 
Como que até reagia a mão do fado,
 
Onde o sol, bem de todos, lhe é vedado
 
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte, 
Que variedade inclui esta medida,
 
Este intervalo de existência à morte !

Travam-se gosto, e dor ; sossego, e lida ; 
É da lei da Natureza ,é lei da sorte
 
Que seja o mal e o bem matriz da vida.

Bocage (1765 - 1805)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O vinho dos amantes

Hoje o espaço é de luzes cheio!
Sem esporas, rédeas e freio,
Vamos a cavalo a um destino
Que o vinho torna um céu divino!

Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No cristal azul da paisagem
Sigamos a longe miragem!

Molemente presos num elo
Dum turbilhão orientado;
Num pesadelo paralelo,

Minha irmã, junto a mim, a nado,
Fugiremos sempre risonhos
Ao paraíso dos meus sonhos!

Charles Baudelaire (1821 - 1867)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Soneto

A cada canto um grande conselheiro, 
Que nos quer governar cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha, 
E podem governar o mundo inteiro. 

Em cada porta um freqüentado olheiro, 
Que a vida do vizinho, e da vizinha 
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro. 

Muitos Mulatos desavergonhados, 
Trazidos pelos pés os homens nobres, 
Posta nas palmas toda a picardia. 

Estupendas usuras nos mercados, 
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.

Gregório de Matos (1623 - 1696)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Anjo

Anjo "Ai! Que vale a vingança, pobre amigo,
Se na vingança a honra não se lava?...
O sangue é rubro, a virgindade é branca -
O sangue aumenta da vergonha a bava.
"Se nós fomos somente desgraçados,
Para que miseráveis nos fazermos?

Desportados da terra assim perdemos
De além da campa as regiões sem termos...
"Ai! não manches no crime a tua vida,
Meu irmão, meu amigo, meu esposo!...
Seria negro o amor de uma perdida
Nos braços a sorrir de um criminoso!. . . "

Castro Alves (1847 - 1871)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Simpatia

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.


Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.


São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.


Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!

Casimiro de Abreu (1839 - 1860)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Novas Poesias Inéditas

Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem acabei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é, 
Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou. 
Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti. 
Releio e digo : "Fui eu ?" 
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa (1888 - 1935)


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Benditas Cadeias!

Quando vou pela Luz arrebatado, 
Escravo dos mais puros sentimentos 
Levo secretos estremecimentos 
Como quem entra em mágico Noivado. 

Cerca-me o mundo mais transfigurado 
Nesses sutis e cândidos momentos... 
Meus olhos, minha boca vão sedentos 
De luz, todo o meu ser iluminado. 

Fico feliz por me sentir escravo 
De um Encanto maior entre os Encantos, 
Livre, na culpa, do mais leve travo. 

De ver minh'alma com tais sonhos, tantos, 
E que por fim me purifico e lavo 
Na água do mais consolador dos prantos 

Cruz e Sousa (1861 -1898)


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca (1894 - 1930)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Allegro

Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra

Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras

E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida

E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.

Vinícius de Moraes (1913 - 1980)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O poeta pede ao seu amor que lhe escreva

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

tradução de William Agel de Melo

Federico Garcia Lorca (1898 - 1936)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Toda Ela

O Demônio em meu quarto salta
Esta manhã para me ver
E, tentando apanhar-me em falta,
Diz-me: "Eu só queria saber,

Entre todas as coisas raras
De que é pródigo seu feitiço,
Entre as jóias negras ou claras
Que ao corpo lhe dão tanto viço,

Qual a mais sublime."- ó minha alma!
Respondeste ao Tinhoso então:
"Porque Ela é um bálsamo que acalma,
Não pode haver predileção.

E como tudo me extasia,
Não sei se nela algo me enfara.
Ela deslumbra como o Dia
E como a Noite nos ampara.

Seu corpo esplêndido é regido
Por harmonias tão concordes
Que nunca pôde o humano ouvido
Escolher um dentre os acordes.

Ó mística transmutação
Que os sentidos num só resume!
Seu hálito faz a canção
E sua voz faz o perfume!"

Charles Baudelaire (1821 - 1867)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Nascemos para Amar

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão nalma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na idéia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Bocage (1765 - 1805)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Asas Abertas

As asas da minh'alma estão abertas! 
Podes te agasalhar no meu Carinho, 
Abrigar-te de frios no meu Ninho 
Com as tuas asas trêmulas, incertas.

Tu'alma lembra vastidões desertas 
Onde tudo é gelado e é só espinho. 
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho 
e as graças todas do Conforto certas.

Vem! Há em mim o eterno Amor imenso 
Que vai tudo florindo e fecundando 
E sobe aos céus como sagrado incenso.

Eis a minh'alma, as asas palpitando 
Com a saudade de agitado lenço 
o segredo dos longes procurando... 

Cruz e Sousa (1861 - 1898)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Renúncia

Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e dalma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

Manuel Bandeira (1886 - 1968)

Às Vezes

Às vezes tenho idéias felizes, 
Idéias subitamente felizes, em idéias 
E nas palavras em que naturalmente se despegam... 

Depois de escrever, leio... 
Por que escrevi isto? 
Onde fui buscar isto? 
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... 
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta 
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Fernando Pessoa (1888 - 1935)


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Escreve-me...

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos 
Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"

Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Florbela Espanca (1894 - 1930)


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Deslumbramentos...

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

Cesário Verde (1855 - 1886)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Particularidades...

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica...

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.


Gilka Machado (1893 - 1980)

 

Se não for agora, quando?

Tem hora de parar - e tem hora de partir.

Tem hora de permanecer quieto e calado num canto,
e tem hora de cantar e de voar.

Agora,
agora não é hora de dobrar as asas,
nem de calar a voz,
nem de catar gravetos para fazer o ninho.

Agora não é hora de sentir remorsos.

Não é hora de buscar consolo,
nem de caiar o túmulo.

Agora que estou na beirada,
bêbado de alegria
e pronto para o salto,
não me segure em nome de nada.

Não queira impedir-me
dizendo que é muito cedo,
ou que é muito tarde,
ou que está escuro, é perigoso, muito alto,
muito fundo, muito longe...

Não!

Se você não puder incentivar-me para o salto;
se você não puder empurrar-me
em direção à Vida,
então não me segure.

Não me prenda, nem me amarre.

Não envenene com teu medo a minha dança.

Seja só uma silenciosa testemunha desta vertigem.

Porque agora,
agora é hora de voar.

É hora de abrir-me a todas as possibilidades.

E saltar num vôo livre e sem destino

para dentro de mim mesmo.

Edson Marques