quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Anelo

Só aos lábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira a morte no fogo.

Na noite em que te geraram, 
Na noite que geraste, sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascinas o desejo 
De comunhão mais intensa.

Não te detem as distâncias, 
Ó mariposa! e nas tardes, 
Á vida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te:" enquanto 
Não cumpres esse destino, 
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Como vem da cana o sumo 
Que os paladares adoça,
Flua assim da minha pena
Flua o amor o quanto possa.

Tradução de Manuel Bandeira

Johann Wolfgang von Goethe  (1749 - 1832)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

E porque haverias de querer...

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst (1930 - 2004)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Dezembros

Nunca mais a natureza da manhã
E a beleza no artifício da cidade
Num edifício sem janelas
Desenhei os olhos dela
Entre vestígios de bala
E a luz da televisão

Os meus olhos têm a fome
Do horizonte
Sua face é um espelho
Sem promessa
Por dezembros atravesso
Oceanos e desertos
Vendo a morte assim tão perto
Minha vida em suas mãos

O trem se vai
Na noite sem estrelas
E o dia vem
Nem eu nem trem, nem ela

Fágner, Zeca Baleiro e Fausto Nilo

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Eu gosto de ler gostando...

Eu gosto de ler gostando, 
gozando a poesia,
 
como se ela fosse
 
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
 
gostando de ser beijada.

 

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
 
como se ele fosse
 
boca de mulher pura
 
simples boa libertada
 
boca de mulher que pensa...
 
dessas que a gente gosta
 
gostando de ser gostada.


Solano Trindade (1908 - 1974)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Onde estás

É meia-noite... e rugindo 
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
"Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto?"
Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
"Oh! minh'amante, onde estás?. . .
Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono! ...
'Stá vazio nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro; 
E tu não queres qu'eu fique 
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh'amante, onde estás? ...
Estrela - na tempestade,
Rosa - nos ermos da vida;
lris - do náufrago errante,
Ilusão - d'alma descrida!
Tu foste, mulher formosa!
Tu foste, ó filha do céu! ...
... E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz...
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do Norte...
"Oh! minh'amante, onde estás?..."

Castro Alves (1847 - 1871)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Compasso

É o que pulsa o meu sangue quente
É o que faz meu animal ser gente
É o meu compasso mais civilizado e controlado

Estou deixando o ar me respirar
Bebendo água pra lubrificar
Mirando a mente em algo producente
Meu alvo é a paz!

Vou carregar de tudo vida afora
Marcas de amor, de luto e espora
Deixo alegria e dor ao ir embora

Amo a vida a cada segundo
Pois para viver eu transformei meu mundo
Abro feliz o peito, é meu direito!

Ricardo MacCord / Angela Ro Rô

Reconvexo