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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Soneto I

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Tubal no empório celebrado,
Em sangüíneo caráter foi marcado
Pelos destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos, e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Bocage (1765 - 1805)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quantas vezes amor, me tens ferido?

Quantas vezes , Amor, me tens ferido ? 
Quantas vezes, Razão, me tens curado ?
 
Quão fácil de um estado a outro estado
 
O mortal sem querer é conduzido !

Tal, que em grau venerando, alto e luzido, 
Como que até reagia a mão do fado,
 
Onde o sol, bem de todos, lhe é vedado
 
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte, 
Que variedade inclui esta medida,
 
Este intervalo de existência à morte !

Travam-se gosto, e dor ; sossego, e lida ; 
É da lei da Natureza ,é lei da sorte
 
Que seja o mal e o bem matriz da vida.

Bocage (1765 - 1805)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Nascemos para Amar

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão nalma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na idéia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Bocage (1765 - 1805)