sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Muher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 
Oh! como és linda, mulher que passas 
Que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
 

Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pelos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 
 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
 

Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
Por que me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me concontrava se te perdias? 
 


Por que não voltas, mulher que passas? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
Para o que sofro não ser desgraça? 
 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 
 

Que fica e passa, que pacífica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.


Vinícius de Moraes (1913 - 1980)

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